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30 outubro 2006

Maboasudas: uma canção que desqualifica


Maboasudas - eis o nome de uma canção famosa (mistura de marrabenta e de rap) que está a dar um pouco por todo o lado neste país, cantada por Zico, com a letra que vos mostro. Prestem bem atenção ao "até albina".
Ninguém pode ser desqualificado por ser albino.
Esta é a segunda vez que me refiro neste diário a essa canção, como estais recordados.
Sobre a mediocridade da letra e da música, permito-me não entrar em pormenores. Mas o tempo está cool para este tipo de criatividade calórica.
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Deverá sair brevemente no semanário "Savana" uma análise jurídica e ética da canção, escrita por Carlos Serra Jr (jurista). A letra pertence a esse trabalho.

16 Comments:

Blogger La Strega said...

Tenho, infelizmente, apetite para advogada do diabo, e se nao fosse antropologa, teria seguido a lide das leis (como o Calucha, de quem espero ver o prometido trabalho de analise sobre a letra desta musica e comparar as visoes entre as duas areas).

A razao principal porque nao segui direito foi porque achei que me cortaria as asas a liberdade. O direito apresenta-se-me muito conservador, limitador e castrador, enquanto a antropologia e ousada, atrevida, irreverente e desafia constantemente os sentidos e os lugares comuns.

Criticar esta musica e facil... eu como mulher, estudada e tal, deveria ser uma das primeiras. Mas sou parte da geracao rasca (como dizem em Portugal) ou do desenrrasca (como deveriamos ser chamados nas terras Marrabentas)... parte da geracao que cresceu no Buzio/Mini-Golf/Coconuts-live a abanar a bunda para todo o tipo de manos-Zico...

Tento por isso encontrar forma de racionalizar o meu gosto pelo ritmo da musica contra a imediata e logica necessidade de aversao pela letra.

Uma possibilidade seria ignorar a letra, fingindo que nao a conheco. O que se torna impossivel, porque a sei decor e quando chego a casa depois da ramboia estou rouca de tanto gritar com o resto dos zombis da noite, junto com o mano-zico.

A segunda possibilidade e dissecar a cancao nos seus aspectos positivos e negativos, para que me sinta uma intelectual menos pseudo...

A letra, ainda que um hino ao machismo e a desapropriacao da mulher e, por outro lado um apelo a tolerancia. Da unica forma que sabe, Zico diz que nao tem qualquer preconceito a qualquer tipo e cor de mulher. Numa sociedade crescentemente e abertamente racista e xenofoba como a nossa, esta nao deixa de ser uma mensagem ousada e poderosa.

A desapropriacao, por outro lado e a exposicao da cosmogonia de uma geracao, quica de uma sociedade inteira, e merece debate... Nao atacando a musica em si, mas a cosmogonia.

A letra e um estandarte... deveria ser usada como exemplo nas salas de aulas para se explicar como se percebe uma sociedade so pelo que ela diz... nem que seja na barraca ou na pista de danca. E nao so nos debates interminaveis e frequentemente entediantes dos media.

30/10/06 11:30 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

Ok, la stratega!

30/10/06 11:45 da tarde  
Anonymous erva said...

Jovens, letras, bits, musicas...
Tenho com frequencia observado que a preocupação dos jovens cantores de hj sinje-se muito em algumas batidas q fazem com que o espirito jovem entre apenas num ritmo e abane o esqueleto como vulgarmente diz-se, esqueçendo-se que o mais importante de tudo é a mensagem que a musica cantada ou escrita tem para transmitir. Como mulher concordo com a citação "Maboasudas: canção que desqualifica"

31/10/06 10:29 da manhã  
Blogger PL said...

Zico somos nós

A música de Zico não será o espelho da nossa ‘alma societal’?
Em outras palavras, Zico não seremos nós? Melhor, muitos de nós?
Se há o que condenar, na música de Zico,penso, é a nossa sociedade!
Não estou com isto a querer retirar a responsabilidade que cada um deve ter sobre os seus actos. Mas estou a questionar até que ponto os actos são nossos, modos genuinos de pensar e de sentir?
É preciso ir para além das, evidências, aparências.
Quem esta a falar naquela música?
O que é que nos esta a sugerir?
É o Zico ou outra entidade por intermédio do Zico?
Na música de Zico não estaremos nós (homens, mulheres, sociedade), desvelados?
A música do Zico não é a única, do genero, que alimenta e se alimenta do imaginário social e da cosmogonia “machista”, se quiserdes”, numa classificação apressada, dos Moçambicanos. Escutai, por exemplo, o Joaquim Macuacua o autor de “Dadinha”.
O mínimo que podemos fazer é apressarmo-nos a qualificar essas músicas de desqualificadoras (perpetuadoras de estigma) da condição da mulher, da/os albina/os e por aí em diante. Penso que deveriamos ir para além disso.
Já sugeri em outros escritos públicos, que era chegada a altura de os cientistas sociais do nosso país ‘meterem a mão na massa’. Existe, na música, materia prima riquissima que nos permitiria lançar um olhar mais criativo e quiça mais genuino sobre a constituição da nossa sociedade moderna. “Em cima de uma lámina” de C.S é um, exemplo, de como isso pode ser feito. Consegue capturar, através da análise da letra do músico Geremias Ngoenha, aquilo que todos os relatórios do PARPA, UNDP e outras organizações que vivem do alívio a pobreza juntas não conseguem. O grito, a dimensão da pobreza experimentada por cidadãos ‘comuns’ no dia-a-adia.
Os músicos, esses, tal como o Zico, não precisam necessáriamente ser convocados para esse debate analítico sobre a música e sobre a sociedade através da música. Esses já desenpenham o seu papel ao produzirem suas composições musicais. Em alguns casos conseguem retratar o nosso ser societal melhor que os telesociologos que passeiam a sua classe na hora nobre da “Nossa Televisão”.
Não quero me antecipar a análise Juridica que vem aí. A diversidade de perspectivas, só deve ser enriquecedora! No entanto, por força de habitus, não me supreenderia se um discurso ‘legalista’ deixasse escapar o que é capturálvel pela leitura das entrelinhas conseguida por algumas sociologias mais ou menos antropologicas e vice-versa!
Infelizmente receio, longe do Maputo, não poder ter acesso ao texto a ser publicado pelo Jornal Savana.
Se o poder aquirir, prometo debater!

PS: Gostei do seu comentário “ advogada do diabo”. Parebens.
PL

31/10/06 11:28 da manhã  
Blogger Carlos Serra said...

Nós até podíamos ir mais longe. Sabeis que "muinhé" deve ter sido, originalmente, um designativo de algo parecido com "chefe". Hoje, "monhé" é um termo considerado pejorativo por aqueles que esse termo cobre. De qualquer das formas, PL coloca questões para um permanente debate. E tem razão no tocante ao "Dadinha!.

31/10/06 11:38 da manhã  
Blogger tina said...

Desqualificação!
É isso mesmo, não há outra expressão que explique melhor a letra da música do Zico.
Não recorrendo mesmo ao “até as albinas”, só os termos “fofuchas”, “gostosas”, “boazudas” por si ja desqualificam as outras mulheres.
Não posso deixar de repisar novamente sobre os estilos Beyoncianos, que são os que a música refere. A desqualificação das outras mulheres fora dos padrões Beyoncianos é uma realidade. As mulheres menos avantajadas estão a perder lugar em Moçambique, e o curioso é que não só no campo da música, mas mesmos nos desfiles de moda, concursos de Beleza, nos últimos tempos a tendência tem sido mesmo essa… Desqualificar as magras. Portanto podemos olhar para a Desqualificação levantada em duas vertentes, em relação as albinas e as menos avantajadas.
Há muitas mulheres albinas Boazudas, veja uma delas:
http://www.fotolog.com/chonguile/?photo_id=19166455

31/10/06 12:13 da tarde  
Blogger jovem da patria amada said...

a questao "ate albina" que, por sinal, valeu ao Zico uma assinatura dum contrato de valores exorbitantes com a Mcel, deve ser vista no contexto do que o Dr Serra chama de opacidade social do jovem Zico.

31/10/06 12:21 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

Oportuna a tua intervenção, Tina!

31/10/06 12:28 da tarde  
Blogger Egidio Vaz said...

O lado positivo do Zico que a "la strega" pretende mostrar, na verdade, não passa dum "acidente".
Se eu quiser ser complacente com o Zico, diria que ele é no mínimo, um "predador irresponsável", que deveria arrepiar os cabelos de todos, na medida em que para ele, o fim último de um mulher é "levar", "dar-lhe", "apanhar". E aqui ele não tem escolha, não tem amor, não se apaixona. Ah, sim; ele é um Player, apesar de ter o ESTATUTO.
Quando Zico "inclui" as albinas na sua lista, ele pretende mostrar quão bulldozzer ele é; quão rolcompressor ele é; quão agressivo ele é, dado que de princípio, para ele, não existe VALORES, GOSTOS, REFERENCIAS. E as mulheres, acima de tudo não deveriam reclamar por estarem a discriminar as albinas ou negras, mas sim por causa do papel e das representações que este jovem pretende dar às mulheres (vide a introdução da canção).
No extremo da análise, diria que Zico apresenta-se como um psicopata sexual, e todo aquele que com ele se identifica, deverá, obrigatoriamente fazer uma análise de consciência sobre os pontos com os quais concorda. Não basta compreender um assunto para nos autoflagelar. É preciso, acima de tudo, tomar uma posição firme, quando alguém tenta, a pretexto de estar a fazer ARTE e por aí, servir de espelho da sociedade, tentar passar as suas ideias e seus profundos sentimentos. Aliás, diria mesmo que EU DUVIDO DA POSSIBILIDADE DE UMA MENSAGEM EM TODAS As MÚSICAS DE ZICO. Há mil e uma formas de transmitir a mesma mensagem sem, contudo, abdicar da musicalidade ou do estilo.
Os G Pro Fam (O País da Marrabenta e outras) ou Os med Level e muito mais, conseguem passar mensagens sem necessariamente primar pelo escandaloso.
Apesar dessa crítica, há nisso um fio condutor para compreender a (ir)racionalidade deste autor: ESCOLA.

31/10/06 12:32 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

De facto, Egídio, as mulheres são completamente coisificadas como objecto sexual primário na canção.

31/10/06 12:36 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

E, já agora, aproveitando uma boleia da Tina: o apelo às formas reconchudas, redondas, beyonceanas, reenvia de imediato para a forma primária do interesse sexual masculino. O que acham?

31/10/06 12:38 da tarde  
Blogger Cl@]\[d€$Ti]\[®™ said...

Olha lá Tina, sinceramente começa lá a respeitar o pessoal, ok??? Sem exageros pois o que está em discução não é que não hajam albinas boazudas mas agora mostrares um fotolog duma albina boazuda, "come on..."
Desqualificado é sim o cantor e a sua letra "Maboasudas"!!!

31/10/06 12:40 da tarde  
Blogger La Strega said...

Egidio,

Realmente nao posso deixar de concordar com a maior parte do seu comentario. Reli o que escrevi, mas penso que estamos a falar de coisas diferentes.

O que eu quis dizer e que e facil criticar a musica apenas, mas o que deveriamos realmente fazer e nao atacar o mensageiro, mas a origem da mensagem. Se ele tem fama e poder e e apelativo, e porque tem espaco para isso, e porque tem exactamente quem com isso se identifique.

Criticar a ele e o mesmo que criticar Jacob Zuma na Africa do sul. O problema nao e que ele exista, mas que exista, diga e faca o que diz e faz e ainda assim tenha apoiantes.

E discordo em apenas um ponto, quando diz que a musica de Zico nao tem mensagem... toda a expressao de comunicacao tem mensagem. A nossa responsabilidade como analistas sociais e de descortinar a mensagem e das mauitas uma:

- analisar a sua origem
- perceber o fenomeno e a sua dinamica
- entender as suas implicacoes
- explorar a sua tipicidade

e por ai vai...

Sejamos tolerantes como o Zico (passe a ironia) nao vamos dar-lhe e 'matar' porque nao nos identificamos com o genero de musica, com o conteudo da cancao ou com o estatuto abominavel (na nossa percepcao) de que ele se vangloria.

Vamos usar a nossa vantagem de capacidade analitica e nao sucumbir a superficialidade da caca as bruxas. Hoje queimamos este, mas de onde morre um, brotam mil.

Creio que pl foi quem melhor percebeu exactamente a que eu me estava a referir.

E de tudo isto, apenas agradecer por me obrigar a pensar.

31/10/06 5:06 da tarde  
Blogger Egidio Vaz said...

Mesmo assim.Continuo a tentar pensar como voce. Mas...compreender alguem significa necessariamente concordar com ele?
E sera que a nossa missao (como investigadores) se limitaria em apenas analisar e compreender? E depois? Que posicao tomariamos perante tamanhos atropelos a dignidade da mulher?
Acho tambem importante prestar atencao ao meu argumento central:
Eu tento discordar com a sua ideia de que "Da unica forma que sabe, Zico diz que nao tem qualquer preconceito a qualquer tipo e cor de mulher. Numa sociedade crescentemente e abertamente racista e xenofoba como a nossa, esta nao deixa de ser uma mensagem ousada e poderosa, (sic)."
Eu disse que nao bem assim. Ele nao mostra de maneira alguma essa tolerancia por se tratar de uma "estrategia da hiena" (apareca na minha gruta visitar-me. E os pequenos animais la iam compadecidas mas nunca mais saiam, ate que o coelho desconfiou dessas visitas tao prolongadas!
Eu disse que essa tolerancia e por delonge, predadora!
Nao tem escolha. Todas as mulheres sao para ele! Portanto, para alem da analise, eu tomo uma posicao em relacao a mensagem.
E parece-me que voce tambem toma, apenas nos diferimos em posicoes; eu dum e voce doutro.
Abracos

31/10/06 6:19 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

Leiam o que de Espinoza coloquei há momentos..

31/10/06 6:22 da tarde  
Blogger Wetela said...

Um verdadeiro "predador iresponsável" tanto que caiu na sua própria malha...mas com estatuto! Hummm não sei não! Que estatuto? Onde goza desse estatuto!Como cantor, como player, como cidadão ou....A mania de escrever sem pensar...ou de escerver aquilo que não queriamos dizer...acredito que o Zico querer mostrar que para ele não há descriminação, todas elas são "maboazudas" e bem o diz maboazuda(para que percebe changana nota que a palavra esta no plural) e isso inclui as menos avantajadas Tina, na minha percepção ele foi infeliz na reprodução das suas ideias para a composição da letra...PS: não estou em defesa do Zico....

6/11/06 2:30 da tarde  

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